![]() |
|
PFrancis Tijanta. figura de Tijanta. |
Cacique capitão Francis Tijanta, um “príncipe destronado”? Relações étnicas e trabalho indígena no contexto da expansão da agricultura no Sul da Bahia na segunda metade do século XIX – Bahia
por Ayalla Oliveira Silva
“No sul da Bahia cacau é o único nome que soa bem”. Essa frase dita por Sergipano, personagem principal do romance Cacau escrito pelo baiano Jorge Amado e publicado em 1933, é representativa do que era a região sul da Bahia no início do século XX. Nessa época, o sul da Bahia, mais precisamente o eixo que envolvia as cidades de Ilhéus e Itabuna, se consolidou como região monocultora de cacau. A exportação desse produto representava mais da metade da receita do Estado, quando o sul da Bahia alcançou o patamar de uma das principais regiões exportadoras de cacau do mundo. Mas a economia do cacau, que, à época, estava indo de vento em polpa, não se consolidou da noite para o dia. Sua criação e ascensão começaram bem antes e envolveram uma gama de atores, dentre os quais os povos indígenas habitantes da região.
Recuemos à segunda metade do século XIX para encontrar e acompanhar o cacique capitão Francis Tijanta, pertencente ao povo Camacã, um dos povos habitantes da zona sul baiana, situada entre os rios Cachoeira, Salgado e Pardo. Os cursos desses rios eram importantes para a geografia regional e constituíam espaços privilegiados para as experiências compartilhadas entre os Camacã e outros grupos étnicos, como os Pataxó, os Mongoió e os Botocudo. Também eram espaços de disputa e negociação com os agentes da colonização, como foi o caso do encontro de Tijanta e seus liderados com um importante coadjuvante dessa história, o fazendeiro Barão Fernando Steiger. A referência a Tijanta como capitão deve-se à histórica atuação indígena no serviço militar, desde que o Brasil era colônia de Portugal. O capitão Tijanta possivelmente atuou no Destacamento da Cachoeirinha do Rio Pardo, estabelecimento militar em funcionamento na região na primeira metade do século XIX.
Tijanta vivia com seus filhos Roberto e Joanita no aldeamento de Ferradas, fundado em 1814 e localizado às margens do rio Cachoeira. Os aldeamentos eram espaços coloniais destinados à catequese indígena, mas foram reconfigurados como espaços de pertencimento daqueles povos. No contexto de maior interesse pelas terras da região devido à expansão agrícola, Ferradas foi abandonado administrativamente pelas autoridades provinciais, nos anos 1860, e parte dos indígenas passou a viver mais ao interior para fugir das violências impostas a eles com o avanço da colonização sobre o território. Por essa razão, em 1869, Tijanta se encontrava no rio Pardo, disputando o território interiorano com os Pataxó e os Mongoió, quando procurou Fernando Steiger, com um grupo de 50 pessoas, na recente fazenda que o Barão havia instalado às margens do rio Salgado, uma zona intermediária entre os rios Cachoeira e Pardo, vila de Ilhéus.
Fernando Steiger era suíço, chegou a Ilhéus em 1846 para administrar a Vitória, uma grande e destacada fazenda pertencente a seu tio May Hünger, de quem comprou a fazenda em 1856. Em 1851, Steiger já estava bem articulado ao poder local quando se casou com Maria Amélia de Sá Bittencourt, inserindo-se na família Sá Bittencourt Câmara, uma das mais influentes da Bahia no período colonial e imperial. Em 1868, o Barão conseguiu doação de terras das autoridades provinciais na zona do rio Salgado, onde fundou uma nova fazenda, destinada, especialmente, ao plantio de cacau e café. Para abrir picadas de acesso e derrubar a mata para a construção da nova fazenda, Steiger contou com o trabalho de seus escravizados e de indígenas aldeados. Aquela era uma região de intensa resistência indígena ao avanço da colonização. Por essa razão, Steiger sabia que a manutenção de seu empreendimento dependia da relação que iria construir com os indígenas. Ele depositou suas expectativas em Tijanta e seu grupo quando foi procurado pelo cacique no Natal de 1869.
Tijanta e Steiger já se conheciam. Em 1860, o arquiduque austríaco Maximiliano de Habsburgo foi recepcionado na fazenda Vitória ao visitar Ilhéus, que fazia parte do roteiro expedicionário naturalista de Maximiliano ao Brasil. Foi acompanhando Maximiliano ao interior da Mata Atlântica que Steiger passou a se interessar em explorar comercialmente a região interiorana localizada no curso do rio Salgado, cujo solo ele avaliou como de excelente qualidade ao cacau e café. Também foi nessa ocasião que ele estabeleceu contato com Tijanta, quando a comitiva expedicionária pousou em Ferradas no dia 20 de janeiro daquele ano, como registrado por Maximiliano em seu caderno de campo.
O arquiduque também registrou que, ao se despedir, os indígenas lhe beijaram a mão em agradecimento pelos presentes recebidos, exceto Tijanta, que lhe apertou a mão e o chamou de “meu primo”, em sinal de altivez diante do estrangeiro. Maximiliano fez até um poema a Tijanta, que foi intitulado Príncipe destronado, pois o capitão havia se instalado em Ferradas com seus filhos após conflitos territoriais com os Botocudo.
Desde aquela visita no Natal de 1869, os Camacã liderados por Tijanta mantinham uma relação de aliança com Steiger, apesar de o Barão se sentir frustrado em seus planos de sedentarizar seus “índios amigos” a fim de dispor de sua força de trabalho. Esse objetivo foi parcialmente alcançado anos mais tarde, como escreveu em uma carta a seus parentes na Europa, datada de 1878: “os meus aliados, os camacães, passaram a gostar de mim, da localidade e da vida um pouco civilizada, consideram-se também aqui mais seguros das investidas dos patachós e dos mongojós [mongoiós] e pediram-me para assentar por aqui as suas moradas”.
O avanço da ocupação e da agricultura, especialmente voltada para o cultivo de cacau, intensificou os conflitos entre indígenas e não indígenas, assim como entre as diferentes etnias obrigadas a compartilhar territórios cada vez mais diminutos. Na ocasião, o assentamento dos Camacã em Salgado constituiu uma aliança de recíproca proteção entre os indígenas e o Barão, pois, na mesma carta escrita em 1878, Steiger confidenciou que estava prestes a vender a fazenda, que era insistentemente atacada pelos Botocudo. Para se manterem a salvo dos conflitos com os Pataxó e Mongoió, no rio Pardo, os Camacã se estabeleceram em Salgado, onde foi montada uma “guarda de corpo” indígena para garantir a segurança da sede da fazenda. Além disso, em suas cartas, Fernando Steiger relatava as incursões do grupo paramilitar que ele organizou contra os Botocudo, pagando a seus “índios amigos” por cada “inimigo” morto com as armas de fogo que ele lhes forneceu em lugar de seus arcos e flexas.
Essa história não termina aqui, mas é preciso dar o ponto final ao texto. Longe de se perceber um príncipe destituído de seu trono, com imensa mobilidade e capacidade diplomática Tijanta encontrou maneira de manter a si e aos seus a salvo da violência física e da fome, estando encurralados em espaços cada vez mais restritos no contexto da avassaladora ocupação agrícola sobre seus territórios. Assim, os Camacã “amigos de Steiger” agiram como puderam na expectativa de manter sua segurança e sobrevivência na região Sul da Bahia, onde, poucas décadas depois, o cacau seria o único nome a soar bem.
Profa. Ayalla Oliveira Silva
Professora da Universidade Federal de Pernambuco e autora do livro Ordem imperial e aldeamento indígena: camacãs, gueréns e pataxós no sul da Bahia (2018).
SAIBA MAIS:
FALCÓN, Gustavo. Coronéis do cacau. Salvador: Solisluna, 2ª Ed. Revisada, 2010.
KRAAY, Hendrik. Repensando o recrutamento militar no Brasil Imperial. Diálogos — Revista do Departamento de História da UEM. Maringá, v. 3, n. 3, p. 113-151, 1999.
SILVA, Ayalla Oliveira. De inimigos a bons amigos? Os Camacã e o Barão Fernando Steiger no quadro da interiorização da colonização na província da Bahia. Revista Brasileira de História, vol. 41, n. 88, pp. 81-105, 2021.


