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DO REINO PATAGÔNICO AOS CANAVIAIS DE MISIONES

De líder da nação Ranquel a trabalhador escravizado em engenho açucareiro, o cacique Yancamil é um símbolo de resistência dos ranqueles frente ao governo argentino – Argentina
 EXISTIU UMA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL?

Jose Gregorio Yancamil em 1914.

Do reino Patagônico aos canaviais de Misiones: De líder da nação Ranquel a trabalhador escravizado em engenho açucareiro, o cacique Yancamil é um símbolo de resistência dos ranqueles frente ao governo argentino.

por Bruno Aranha

Quando olhamos para o mapa da América do Sul, não é difícil apontar qual é o segundo maior país em extensão territorial depois do Brasil. A Argentina, apesar da baixa densidade demográfica, apresenta um grande território que vai desde os desertos andinos e da floresta subtropical ao norte, passando pela Pampa e indo até as proximidades do continente antártico, no extremo sul da Patagônia. No entanto, há não muito tempo atrás, mais precisamente até as últimas duas décadas do século XIX, a sua fronteira meridional mal passava de alguns quilômetros ao sul de Buenos Aires. Dentro desse contexto, o país mantinha relações diplomáticas com as confederações indígenas ao nível de qualquer outra nação estrangeira. Foi o caso do Ulmanato Ranquel, situado a oeste de Buenos Aires.

É a partir dessa conjuntura que situamos a história do nosso personagem, José Gregorio Yancamil, o último cacique da nação Ranquel.

Em 29 de outubro de 1878, Yancamil foi cobrar as provisões – tabaco, farinha, carne e erva-mate - estipuladas por um tratado firmado entre o Ulmanato Ranquel e o governo argentino. Contudo, de maneira furtiva, o coronel Rudencindo Roca (1850-1903), comandou o episódio conhecido como Matanza del Pozo del Cuadril, no qual, quebrando o referido tratado, ordenou o fuzilamento de toda a comitiva Ranquel. O cacique sobreviveu ao ataque e a partir daí empreendeu guerra contra os argentinos na região da Patagônia.

Em 19 de agosto de 1882, o encontro foi com o general Julio Argentino Roca (1843-1914), irmão de Rudencino e futuro presidente da Argentina. O cenário foi a Batalha de Cochicó, próximo a atual cidade de Victorica, província de La Pampa. Dessa vez a vitória foi do cacique, o qual freou momentaneamente o avanço argentino sobre a Patagônia.

Anos depois, na medida em que a Conquista del Desierto consolidou o domínio argentino sobre a vasta região patagônica, um monumento foi inaugurado na praça central de Victorica em memória aos soldados mortos nessa batalha. A Pirámide Héroes de Cochicó nos diz muito sobre a política estatal de erguer monumentos carregados de uma narrativa política e ideológica que determinava o que deveria ser lembrado e o que era para ser esquecido.

Em 1883, Yancamil foi rendido pelo exército argentino, separado de sua família e conduzido como prisioneiro à Ilha de Martin García, localizada no rio da Prata, já próxima da costa uruguaia.

Naquela altura, para além do avanço no sentido sul, a Argentina também levava as suas fronteiras para o norte, mais precisamente para o Chaco, Tucumán e Misiones. Nessas regiões foram instalados engenhos de açúcar que demandavam muita mão de obra. Em meio às dificuldades de cooptar os indígenas da própria região, como medida emergencial, foi utilizada a mão de obra dos indígenas prisioneiros obtidos durante as campanhas militares realizadas pelo exército na Patagônia. Esse contingente que estava instalado em campos de concentração na ilha de Martin Garcia acabou sendo direcionado para atender a demanda por trabalhadores em regiões que estavam sendo integradas ao mercado nacional como economias complementares à expansão da pecuária pela fronteira sul. Foi o caso da agroindústria do açúcar em Tucumán, cuja produção em franca expansão, motivou uma experiência embrionária também em Misiones, região de fronteira com o Brasil e o Paraguai.

O engenho San Juan, fundado em 1884 nas cercanias de Santa Ana, foi o primeiro empreendimento açucareiro fundado em Misiones. Tratava-se de uma empresa cujo proprietário era Rudecindo Roca, o próprio algoz de Yancamil, que naquela altura foi nomeado pelo governo argentino como o primeiro governador de Misiones.

Como uma espécie de revanche, o ano de 1888 marcou o reencontro entre o cacique e o militar da Conquista del Desierto. Ainda que naquela altura estivesse reduzido à condição de escravizado, o líder Ranquel não havia perdido o seu senso de liderança. No dia 23 de junho daquele ano protagonizou uma grande revolta no engenho, comandando 250 indígenas que renderam os capatazes, enfrentaram a polícia de Santa Ana e ainda tomaram os vapores estacionados nas margens do rio Paraná para cruzar a fronteira em direção ao Paraguai, ficando assim fora da alçada das autoridades argentinas.

Após esse episódio, o cacique e o coronel nunca mais voltariam a se encontrar. A Argentina chegou a emitir para o governo paraguaio um pedido de extradição de Yancamil, o qual nunca foi atendido. Em 1904, um ano após a morte de Rudencino Roca, foi concedido indulto ao cacique, o qual optou por voltar à sua terra natal, onde viveu ainda por décadas até o seu falecimento em Victorica, no dia 8 de fevereiro de 1931, aos 112 anos de idade.

A história do guerreiro Ranquel não termina como o seu falecimento. Uma nova revanche aconteceu no dia 19 de agosto de 2006, exatamente na “data comemorativa” da Batalha de Cochicó, quando os seus restos mortais foram transladados do cemitério municipal para um mausoléu na praça central de Victorica, a poucos metros da Pirámide Héroes de Cochicó. Hoje, novamente estão lado a lado o cacique e os militares que se enfrentaram em 19 de agosto de 1882.

Tal revanche não deixa de representar uma resposta do próprio povo Ranquel que não aceitou a invisibilização imposta pelo governo argentino quando ergueu o monumento aos soldados que os combateram. Dentro do contexto de uma disputa de memórias, os indígenas se articularam para serem lembrados como parte da memória coletiva da Patagônia. Por esse motivo foi urgente honrar e perpetuar a memória do cacique Yancamil.


31 Marta Lúcia Lopes FittipaldiBruno Aranha

Historiador do Museu Histórico de Pinhalzinho (SC) e autor de diversos artigos e livros sobre história comparada entre Brasil e Argentina.

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SAIBA MAIS:

Gabriel Passetti. Confederações indígenas em luta por participação política, comercial e territorial: Argentina, 1852 – 1859. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-90742009000200006

Diana Lenton. El expediente de la sublevación de los pampas en Santa Ana (1888, Misiones, Argentina). Disponível em: https://journals.openedition.org/corpusarchivos/1873

Rafael Pedro Curtoni e María Gabriela Chaparro. El Re-entierro del Cacique José Gregorio Yancamil. Patrimonio, Política y Memoria de Piedra en la Pampa Argentina. Disponível em: https://revistadeantropologia.uchile.cl/index.php/RCA/article/view/14311/14625 .