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REZAR E TRABALHAR

Acusados de usar o trabalho indígena em benefício próprio, os jesuítas se defendiam afirmando que o ócio prejudicava a conversão ao cristianismo – Bahia
 EXISTIU UMA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL?

LI: Vila de Abrantes. In: Notícias da viagem e jornadas
que fez o capitão Domingos Alves Branco Muniz Barreto
entre os índios sublevados nas vilas e aldeias das
comarcas dos Ilhéus e norte na capitania da Bahia.
Disponível em: http://bit.ly/3ZNb0G5. Acesso em: 13 Dec. 2024.

Rezar e trabalhar: Acusados de usar o trabalho indígena em benefício próprio, os jesuítas se defendiam afirmando que o ócio prejudicava a conversão ao cristianismo.

por Fabricio Lyrio Santos

Até serem expulsos de Portugal e das colônias portuguesas, em decorrência da Lei de 3 de setembro de 1759, os jesuítas defenderam que o trabalho indígena era uma ferramenta fundamental para o processo de catequese, pois favorecia o aprendizado da disciplina e combatia a ociosidade. Mas, ao longo da colonização, eles foram acusados, diversas vezes, de se beneficiarem do que era produzido pelos indígenas nos aldeamentos que administravam.

Imbuídos da tarefa de difundir a religião cristã entre os povos originários do continente, missionários de diferentes ordens religiosas aportaram por aqui a partir do final do século XV. Os jesuítas, integrantes da chamada Companhia de Jesus, desembarcaram no Brasil em 1549, junto com o primeiro governador-geral da colônia, Tomé de Souza (1549-1553). Já no governo seguinte, que ficou a cargo de Duarte da Costa (1553-1558), começaram a reunir comunidades indígenas em torno de Salvador e de outras povoações portuguesas estabelecidas no litoral, a fim de catequizá-las. Mas, foi com o terceiro governador-geral, Mem de Sá (1558-1572), que a missão jesuítica se consolidou, expandindo-se por meio da criação dos chamados aldeamentos, aldeias regidas pelos religiosos, com o apoio civil e militar do governador.

No interior dos aldeamentos, os indígenas eram submetidos a uma rotina de constante aprendizado da religião cristã, bem como da cultura europeia, entendida como o conjunto de hábitos e costumes próprios dos colonizadores. Essa sobreposição entre religião e cultura é uma dimensão fundamental do período histórico conhecido como modernidade, tendo em vista o profundo enraizamento do cristianismo na cultura ocidental. Temas como família, sexo, casamento, vestimenta, moradia e, obviamente, trabalho, sofriam forte influência da religião.

O trabalho era parte do cotidiano indígena muito antes da invasão europeia. Os indígenas realizavam diversas atividades produtivas no seu cotidiano visando a interação com o ambiente, a construção e a manutenção das aldeias, a fabricação de utensílios, adornos, armas e ferramentas, a preparação para a guerra, a produção do alimento, a realização de festas e rituais, a superação das doenças e infortúnios etc. Esse trabalho era realizado segundo as normas vigentes naquelas sociedades, em meio a uma enorme diversidade de povos e culturas.

Apesar dessa diversidade, é possível afirmar que, em linhas gerais, o tempo, a finalidade e a duração das atividades relacionadas à ideia de trabalho nas sociedades indígenas não correspondiam aos padrões europeus, que enxergavam o trabalho como uma ferramenta de acumulação de riqueza. Além disso, de acordo com a ótica cristã, o trabalho possuía uma dimensão moral, pois foi o castigo atribuído à humanidade pelo pecado cometido por Adão. Sendo assim, para os missionários, o valor do trabalho ia além da esfera econômica, pois servia como ferramenta para combater a ociosidade, entendida como expressão do pecado.

Os jesuítas não esperavam que os indígenas aldeados produzissem mais do que o necessário para si próprios e para a manutenção dos aldeamentos, o que incluía as obras de construção e conserto das igrejas e o sustento dos missionários. No entanto, nas regiões em que se mostrava vantajoso, o trabalho indígena era aplicado também em atividades comerciais e lucrativas, como na coleta das chamadas “drogas do sertão”, na Amazônia colonial.

Antes de serem definitivamente expulsos, os jesuítas foram afastados dos aldeamentos, os quais foram transformados em vilas, em decorrência da Lei de Liberdade dos Índios, de 6 de junho de 1755. O trabalho no interior das vilas e diversos outros aspectos do cotidiano indígena passaram a ser regulamentados pelo chamado “Diretório dos Índios”, documento redigido em 1757 e tornado lei no ano seguinte. As autoridades envolvidas no processo de implementação dessa nova legislação buscaram investigar se as acusações feitas aos jesuítas quanto à exploração da mão de obra indígena em benefício próprio eram verdadeiras. Na Bahia, foi elaborado um questionário que incluía tópicos sobre o trabalho indígena, a produção agrícola e artesanal dos aldeamentos e a postura dos jesuítas diante dessas questões.

No dia 8 de outubro de 1758, o antigo aldeamento do Espírito Santo de Ipitanga, habitado por indígenas do grupo étnico Tupinambá, foi transformado em vila com o nome de Nova Abrantes. As respostas ao questionário citado no parágrafo anterior foram dadas pelo ministro responsável pela criação da vila, o juiz de fora da cidade de Salvador, João Ferreira de Bittencourt e Sá. Ele informou que as terras eram cultivadas separadamente, em roças familiares, mas consideradas patrimônio comum dos moradores. Os indígenas plantavam também nas terras reservadas aos missionários, garantindo a sustentação deles. Além disso, dividiam com eles o pescado e os mariscos, abundantes na região. Os principais produtos da agricultura indígena eram a mandioca, usada na fabricação da farinha, e o algodão, utilizado para a confecção de redes e peças de vestuário. Homens e mulheres trabalhavam igualmente no campo. Os tupinambás também produziam objetos de artesanato que serviam como moeda na comunidade e eram comercializados fora dela. A renda era revertida para cobrir as despesas do próprio aldeamento e da igreja.

A aldeia possuía uma olaria, na qual os indígenas fabricavam tijolos e telhas. Essas podem ser vistas na cobertura do templo e de algumas casas, na figura em destaque. A maioria das moradias, no entanto, era feita de taipa e coberta de fibras naturais. É de se imaginar o quanto os indígenas trabalharam durante a construção das suas próprias casas, da igreja e da residência usada pelos religiosos. Estas últimas foram fabricadas de pedra e cal, materiais de maior durabilidade. De fato, a igreja continua de pé, dominando a praça, que hoje integra o distrito de Abrantes, no município de Camaçari, na Bahia. Os jesuítas saíram ilesos da acusação de se valerem dos índios como escravos ou de explorarem o trabalho deles em benefício próprio, ao menos nesse aldeamento, segundo a opinião do ministro que criou a vila.

Após a saída dos jesuítas e a implantação do Diretório, os moradores de Abrantes continuaram se dedicando ao cultivo de mandioca e de algodão, bem como à fabricação de telhas e tijolos, segundo relata o capitão Domingos Alves Branco Muniz Barreto, autor da imagem que ilustra esse artigo. Em visita à vila no ano de 1792, ele a considerou muito bem localizada, amena e aprazível, e seus habitantes bastante dados à agricultura. A farinha produzida pelos indígenas excedia o necessário para o sustento, abastecendo também a cidade de Salvador.

Ao assumirem a tarefa de expandir a religião cristã entre as populações originárias desse continente, os jesuítas elegeram o trabalho como ferramenta de catequese. Teria sido a catequese, em contrapartida, uma ferramenta de exploração da mão de obra nativa? Parte da historiografia exime os jesuítas dessa acusação, parte corrobora. A documentação disponível parece fornecer argumentos favoráveis para os dois lados. Talvez nunca tenhamos uma resposta definitiva a respeito dessa questão.


31 Marta Lúcia Lopes FittipaldiProf. Fabricio Lyrio Santos

Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e autor dos livros “Te Deum laudamus: a expulsão dos jesuítas da Bahia (2019) e Da catequese à civilização: colonização e povos indígenas no Brasil (2024), ambos publicados pela Editora Sagga.

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SAIBA MAIS:

ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses Indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: FGV, 2013.

CASTELNAU-L’ESTOILE, Charlotte de. Operários de uma vinha estéril: os jesuítas e a conversão dos índios no Brasil – 1580-1620. Bauru, SP: Edusc, 2006.

POMPA, Cristina. Religião como tradução: missionários, Tupi e Tapuia no Brasil colonial. 1ª ed. Bauru, SP: EDUSC, 2003.

SANTOS, Fabricio Lyrio. Da catequese à civilização: colonização e povos indígenas no Brasil. 2ª ed. Salvador: Sagga, 2024.

ZERON, Carlos Alberto de Moura Ribeiro. Linha de Fé: A Companhia de Jesus e a escravidão no processo de formação da sociedade colonial (Brasil, séculos XVI e XVII). São Paulo: Edusp, 2011.