ANPUH Nacional

DEPENDÊNCIA COLONIAL DO TRABALHO INDÍGENA

Colonizadores como companheiros de viagem. Invertendo narrativas sobre o trabalho de guias e remadores indígenas na Amazónia oitocentista
 EXISTIU UMA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL?

LI: Mapa de la Republica de Bolivia de José Maria Linares, 1859.

Dependência colonial do trabalho indígena: colonizadores como companheiros de viagem. Invertendo narrativas sobre o trabalho de guias e remadores indígenas na Amazónia oitocentista

por José Octavio Orsag

O século XIX marcou o início de um novo momento de colonização quando vários atores coloniais estenderam suas redes tanto pelo Rio Amazonas quanto pela Cordilheira dos Andes. É nesse momento de surgimento e colonização de estados independentes na América do Sul que as categorias de comércio e trabalho se tornam centrais para o projeto civilizatório. A demanda de mão de obra por administradores públicos e empresários privados, tornou-se um pilar da nova tentativa de colonizar a Amazônia, mas principalmente no processo de formação dos estados-nação. Os países latino-americanos, ansiosos por tomar posse dos territórios indígenas amazônicos, emitiram regulamentos que ajudaram, sob seus próprios princípios, a civilizar a população indígena por meio da introdução de missionários católicos, da construção de fortes ou da expansão comercial.

As autoridades nacionais e os diversos comerciantes da época tinham uma queixa em comum: a falta de mão de obra. Davi Leal aponta como o problema é um tema central de discussão nos relatórios, discursos e falas das autoridades da província do Amazonas e do Pará no século XIX. Para entender isso, é necessário lembrar as reflexões de Michael Taussig quem estabelece que, em vez de um vazio demográfico ou de uma falta de pessoas para fazer os trabalhos o que realmente havia era uma rejeição ao trabalho. Essa reflexão torna o problema mais complexo; não se trata de uma rejeição do trabalho pelo fato de ser trabalho, mas sim da possibilidade de escolher as atividades que as populações indígenas queriam e podiam realizar. Na Amazônia, o trabalho tem de ser entendido como mais do que uma categoria que emana do pensamento da economia política ocidental. O trabalho é um espaço de disputa simbólica, por um lado, do que os atores coloniais na Amazônia entendem e exigem e, por outro, das formas como as populações locais, principalmente indígenas, também o utilizam a seu favor, principalmente para se inserirem em circuitos de troca.

Quero propor aqui um termo para repensar as relações de trabalho. Algo que tem sido relegado no imaginário histórico da Amazônia é o fato de que os atores coloniais dependiam das estruturas sociais e das economias das populações indígenas. O conceito de dependência aqui é fundamental porque destaca uma série de relações estabelecidas entre as populações indígenas da Amazônia e os atores coloniais, mas também a forma como as narrativas históricas nacionais silenciaram aspectos centrais da vida amazônica, como o conhecimento ambiental, geográfico e produtivo das populações locais.

É difícil imaginar qualquer expedição no século XIX, antes do boom da borracha, sem a participação indígena. Na região do Rio Urubamba, no que hoje é o território peruano, os povos Piro e Campa, como eram conhecidos na época (hoje Yine e Mashinguenga), foram os que permitiram qualquer tipo de viagem de canoa tanto para as autoridades locais quanto para os missionários católicos. Na viagem de Francisco Carrasco pela região em 1846, um capitão de fragata da Marinha peruana, descreve como os viajantes tinham de seguir os ritmos dos Piro, que paravam de vez em quando para pescar ou coletar folhas de palmeiras. Essa imagem é crucial quando se pensa em como esses atores tiveram que se adaptar aos ritmos e lógicas territoriais indígenas. Nesse sentido, podemos entender o desespero quando eles reclamavam que os indígenas não trabalhavam; evidentemente, os Piro não trabalhavam para os colonizadores, os colonizadores eram meros companheiros em suas viagens.

Na mesma região, Raimundo Estrella, em 1871, descreve os grandes problemas que ele e o capitão Chávez tinham para encontrar remadores no Rio Urubamba. Em primeiro lugar, tiveram de procurar novos grupos de remadores, pois os remadores não percorriam todo o trecho do rio. Estrella e Chávez contaram com a ajuda de intermediários, como Victoriano Peña, que falava quíchua, espanhol e a língua piro. Esses atores em territórios indígenas tiveram que negociar e passar por grande sofrimento caminhando pela floresta para chegar às aldeias indígenas e negociar a mão de obra indígena. A população indígena estava em vantagem porque os outros estavam à sua mercê. Isso é comprovado quando Raimundo e Chávez são deixados sozinhos, seus remadores os abandonam. Estrella confirma que eles não são muito bons remadores e que a viagem é infinitamente longa.

A imagem de dependência vai além do trabalho, mas também envolve os conhecimentos como guias e as possibilidades de interlocução com outros grupos indígenas. A viagem que Antônio Labre fez com o seringalista boliviano Víctor Mercier à região dos Rios Beni e Alto Acre, em 1887, tem várias referências a essas relações. Nos documentos que relatam a viagem, encontramos vários chefes indígenas, como os Araona Capa, ou os Pacaguara Tata Rhuna, Tata Canuparu, ou os chamados Guarayos Tata Cahaaty e Tata Cayuary. Eles desempenham um papel central ao permitir que Labre e Mercier realizem qualquer tipo de transação com as populações indígenas locais. Nas fontes, o papel desses líderes é mais perceptível quando eles chegam a um território descrito como Cannamary ou Caripuna, no Acre. Nessa aldeia, os chefes ameaçam Canuparu por ter trazido brancos para suas aldeias, que eles identificam como inimigos e ameaçam matar. O mais interessante é como todos os líderes se reúnem naquela mesma noite para discutir sem a presença de Labre ou Mercier. Embora tentem engrandecer seu desempenho em seus respectivos diários, suas vidas estavam nas mãos da decisão indígena. Não sabemos que acordos os líderes indígenas fizeram naquela noite, mas no dia seguinte os chefes Cannamary aceitaram a presença deles, trocaram mercadorias por guias e carregadores e continuaram a viagem normalmente.

Há também várias referências a populações indígenas que optaram por trabalhar em períodos específicos durante o boom da borracha, como os Yuracares, trabalhando como remadores no Rio Chapare, os Chacobos trabalhando no desmatamento das plantações dos seringais, mas não na extração de borracha no Rio Beni, e os Araonas trabalhando para o seringueiro boliviano Antonio Vaca Díez. Isso demonstra não apenas a possibilidade de alguns povos indígenas escolherem sua forma de interação com os agentes coloniais, mas também de se envolverem em atividades específicas que os povos indígenas sabiam que os agentes coloniais valorizavam. Isso não significa que não levamos em conta a violência com a qual os atores muitas vezes forçavam as populações locais, mas também implica entender a região amazônica como uma região contestada em que muitas populações indígenas podiam usar a dependência e as necessidades dos atores coloniais para estabelecer relações que as beneficiassem. No entanto, é importante contextualizar isso na história das possibilidades indígenas que, sem dúvida, estão diminuindo com o avanço do boom da borracha.

Dentro da categoria de trabalho, há muitas outras histórias, principalmente as do trabalho indígena, que não receberam muita atenção nas histórias econômicas e nacionais. Por exemplo, a história da alimentação na Amazônia é um tema importante. Várias fontes mostram a importância do comércio de peixe salgado no século XIX, antes do boom da borracha, mesmo em grandes cidades como Belém e Manaus. Sabemos que, no lado peruano, por exemplo, esse trabalho era realizado por vários grupos indígenas, como os Cocamas, os Shipibos e os Conibos, em uma base sazonal; não sabemos muito bem quem o realizava no lado brasileiro, mas podemos supor que não variava muito. O comércio de peixe salgado é tão grande que os relatórios dos presidentes da província do Amazonas mostram em dados quantitativos como o volume de peixe salgado excede o da borracha quase até 1880. Esse é mais um exemplo de uma história não contada, mas se seguirmos a trilha pelos afluentes, rios e igarapés da floresta amazônica, poderemos encontrar um espaço histórico de negociação e agência indígena.


31 Marta Lúcia Lopes FittipaldiProf. Jose Octavio Orsag

É doutorando em História na New York University (NYU). É autor dos libro Civilización y Barbarie. Los pueblos no reducidos em el auge de la goma. Bolívia 1880-1912 (Carrera de História-UMSA, 2018) e Circuitos econômicos durante el auge de la goma em Bolivia 1880-1912 (CIS, 2021).

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SAIBA MAIS:

Davi Leal. (2021) Mundos do trabalho e conflitos sociais no Rio Madeira 1861 – 1932. Manaus: Valer.

Michael Taussig. (2021) Chamanismo, colonialismo y el hombre salvaje. Um estudio del terror y la curación. Popayan: Universidad del Cauca.

Jose Octavio Orsag (2024) “The Rubber Boom and Indigenous Territories. Export Economy, Colonization, and the Bolivian Nation-State.” em Rossana Barragán and Carmen Solíz, eds. The Struggle for Natural Resources. Findings from Bolivian History Albuquerque: New Mexico University Press, 2024.