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LI: Canoa no rio Japurá leva produtos ao mercado de Coari. |
por Bruno Miranda Braga
Era mais uma manhã de sol forte no Japurá, região fronteiriça entre o Brasil e a Colômbia. Os comerciantes organizavam seus produtos recém obtidos de suas pequenas produções a fim de encaminhá-los ao mercado de Coari, na margem esquerda do Rio Solimões. Albert Frisch, fotógrafo alemão, passava naquele momento próximo ao local de embarque das mercadorias e via a intensidade do movimento, do trabalho, e das pessoas ali. Prontamente montou sua estrutura de maquinário fotográfico e fez a foto acima, na qual vemos uma cena cotidiana de trabalho e a participação indígena.
Em seguida, no comando remeiro da canoa estão quatro homens indígenas, que quase sincronicamente remam rumo ao destino. Essa cena é uma perfeita amostra de um dos principais usos dos indígenas na província: o trabalho dos remeiros: muitos indígenas passaram a oferecer seus trabalhos naquele período estabelecendo contato com outras culturas. Os quatro homens estão trajando uma espécie de calça de tecido e corte simples, estão sem camisa, um deles está com um chapéu de palha. Pelo movimento expresso na imagem, é visível a habilidade, fruto de uma prática e de conhecimentos realizados e estudados há tempos pelos grupos da Amazônia.
A fotografia é riquíssima e mostra as particularidades cotidianas dos trabalhos dos indígenas no Amazonas oitocentista. Trata-se de uma igarité que transportava gêneros a Coari, saindo do Japurá. Mas que gêneros eram aqueles, e quem os produziu, e com que constância isso acontecia, já que em meios “oficiais” os governantes da província constantemente reclamavam e afirmam que o Amazonas era “vazio de gentes” e estava tomado de “vagabundo, preguiçosos e vadios”?
Na primeira década de sua instauração, a Província do Amazonas buscou entre os anos 1850-1862 angariar indígenas para exercerem trabalhos nas suas demandas políticas e espaciais. Formou-se o corpo de trabalhadores, o sistema de trabalhadores da província, os trabalhadores das obras públicas e privadas, convencionou-se atrelar a Diretoria Geral dos Índios a Diretoria das Obras Públicas, sem em momento algum verificar as potencialidades dos trabalhos que os indígenas já exerciam.
No período entre 1864-1870, parece que a província se voltou a investigar o “trabalho dos índios” em suas particularidades étnicas e locais, e como essas particularidades poderiam potenciar o futuro da província. Nesse sentido, a união entre a catequese e a civilização e trabalho foi oportunizada naquele intervalo de tempo. Gabriel Antônio Ribeiro Guimarães, na função de Diretor Geral dos Índios no ano de 1866, nas suas andanças pelos aldeamentos da província, descreveu os indígenas do Amazonas como pessoas adaptáveis e responsáveis.
Reafirmou-se a ideia de que os “índios não gostavam de trabalhar”, pois não assumiam os plantios, as colheitas. Não era um “não trabalho”, era um “não trabalho na concepção do branco”, discurso que gerou o estigma e o preconceito de que os indígenas eram preguiçosos. As fontes, por outro lado, também apontam para a colheita de frutos silvestres para se alimentarem ou mesmo venderem, como no Mercado de Coari. O importante é percebermos esse movimento, essa dinâmica cotidiana que esses sujeitos exerciam: pequenas plantações de mandioca, e a posteriori produziam farinha beijú; colhiam frutos, caçavam, pescavam e festejavam. Também tripulavam canoas com ampla habilidade, das brenhas das matas e rios tiravam a pesca do pirarucu e do peixe-boi, e nos lagos a caça das tartarugas.
O trabalho nos mundos indígenas era exercido antes do contato com o mundo exterior e permaneceu como prática cultural do cotidiano e do ethos amazônico, cada um com sua habilidade e produção peculiar.
Os Maué e os Mundurucu eram nos oitocentos povos cultivadores, especializados no plantio do guaraná, fruto que abunda ainda hoje nas comunidades desses grupos na Amazônia. Vários diretores de índios ponderaram que os Maué eram os que faziam a economia e a riqueza de Maués, cidade do Amazonas; já os Mundurucu eram adeptos de trabalhos leves, e possuíam um espírito guerreiro.
Os grupos do Alto Rio Negro, Rio Uaupés e Rio Içana eram os mais organizados em termos de “produtividade agrícola”. Diversas fontes da diretoria geral dos índios, bem como da presidência da província, apresentam-nos como laboriosos e muito produtores de gêneros que eram base da exportação da província, como as redes de maqueira e a farinha, que se tornaram presentes no comércio em Manaus nos anos 1860. Os ralos por eles fabricados, conhecidos desde 1855 quando o vapor provincial Monarcha passou pela região e destacou que sua utilidade, era onipresente em toda a região. Havia também um “comércio da farinha”. A documentação do período aponta para essa atividade crescente e corrente na província em todo o oitocentos, na qual os indígenas eram seus executores e administradores, desde o plantio até a venda, inseridos e vivificando seus saberes neste trabalho.
Os Muras eram exímios pescadores. Parte de suas atividades era no conhecimento dos regimes hídricos e dos espécimes fluviais. Ao compará-los a “ciganos”, possivelmente o diretor dos índios quis aludir ao fato de estes viverem em constante movimento espacial, pois se apoderavam de elementos de outras ações, especialmente dos Mundurucu, com os quais tinham divergências interétnicas.
Os Uaimiri da região do Jauaperuy, segundo o diretor, haviam “cessado nas correrias”. Porém, resistiram e foram, como o próprio diretor apontou, “empregados” na extração das drogas do mato.
Os números da exportação provincial eram grandes para “o vazio de trabalhadores”. A assertiva “e tudo isto é trabalho d’esses homens”, muito presente nos relatórios provinciais, corrobora nossa ideia de que, de fato, o trabalho dos indígenas no Amazonas Provincial estava além de uma figuração de membros do “operariado das obras públicas”. Se analisarmos o funcionamento das ruas da capital relatadas pelos transeuntes e viajantes, é cena comum vermos indígenas vendedoras de frutas, de doces, de peixe seco, de ovos de tartaruga e tracajá; bem como indígenas caçadores, remadores e pescadores, formando, assim, um mundo do trabalho além da classe “oficial” que o corpo de trabalhadores unia.
Prof. Bruno Miranda Braga
É professor da Faculdade Católica do Amazonas.
SAIBA MAIS:
HENRIQUE, Márcio Couto. Sem Vieira nem Pombal: índios na Amazônia do século XIX. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2018.
LEAL, Davi Avelino. Mundos do Trabalho e conflitos sociais no Rio Madeira 1861-1932. Manaus: Valer, 2021.
MACIEL, Benedito do Espírito Santo Pena. Histórias intercruzadas: Projetos, ações e práticas indígenas e indigenistas na Província do Amazonas (1850-1889). Tese (Doutorado em Sociedade e Cultura na Amazônia). Universidade Federal do Amazonas, UFAM, 2015.
LUCAS, Maria Luísa. Os Miranha e as fotografias de Albert Frisch. 2019. Disponível em: https://ims.com.br/por-dentro-acervos/os-miranha-e-as-fotografias-de-albert-frisch-maria-luisa-lucas. .


