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LI:"O príncipe alemão Maximilian von Wied-Neuwied caçando com seu informante Guack". |
O trabalho dos intelectuais indígenas.
por Hal Langfur
Tal como o seu trabalho manual, o trabalho intelectual dos homens e das mulheres indígenas no passado foi minimizado ou ignorado. Os forasteiros que viajavam para terras indígenas raramente reconheciam o quanto aprendiam com os informantes indígenas. Podemos chamar esses detentores de saberes tradicionais de intelectuais indígenas. A sua compreensão do mundo em que viviam pode não ter vindo de livros e escolas, mas era, no entanto, sútil, complexa e profunda. Quanto aos forasteiros, mesmo aqueles que se tornaram famosos pela sua experiência em costumes e culturas indígenas frequentemente ocultavam como adquiriram informações de indivíduos dispostos, persuadidos ou coagidos a partilhar conhecimentos sobre os seus povos.
Vemos essa omissão em ação nas interações entre o renomado príncipe, etnólogo e naturalista alemão Maximilian von Wied-Neuwied e os povos da floresta que ele encontrou no Forte Arcos, no rio Jequitinhonha, durante uma estadia de um mês em 1816. Essa estadia lhe proporcionou fatos e impressões fundamentais, que ele incluiu em sua obra em dois volumes, Reise nach Brasilien, aclamada como o estudo científico mais sofisticado da época sobre a história natural e as culturas indígenas da região. Adotando a linguagem colonialista de sua época, Wied chamou os povos que encontrou de botocudo, um nome genérico e pejorativo imposto a eles pelos portugueses. Hoje, conhecidos como Krenak, os descendentes desses caçadores e coletores nômades residem em terras protegidas pelo governo federal ao longo do rio Doce.
O príncipe alemão reconheceu apenas de forma indireta o quanto dependia de informantes indígenas para esclarecê-lo. Essa falta de crédito às fontes era típica de muitos naturalistas europeus que visitaram o Brasil no início do século XIX. Na narração cronológica, em forma de diário, da sua estadia em Forte Arcos, Wied mencionou brevemente várias interações com um assistente a quem chamava Ahó, que caracterizou como “o meu botocudo”. Ahó serviu o naturalista como barqueiro e caçador, mas não foi reconhecido como informante na análise etnológica de Wied. Por outro lado, Wied não mencionou uma única vez o seu assistente indígena Guack no seu relato da visita a Forte Arcos. Aproveitando a legalização da escravatura indígena pela coroa após a declaração de guerra contra os botocudos, em 1808, Wied comprou Guack e incluiu-o na sua comitiva de viagem. Quando Wied regressou à Europa para redigir as suas descobertas, Guack acompanhou-o. No palácio da sua família, junto ao rio Reno, o naturalista continuou a contar com o seu jovem informante botocudo. Guack serviu como um espécime vivo e físico, disponível para questionamentos e observações ininterruptas, enquanto Wied refinava as suas teorias e aperfeiçoava o relato das suas viagens pelo Brasil, que foi amplamente aclamado.
O fato de esse jovem botocudo ter estado com ele durante toda a estadia em Forte Arcos só fica claro para o leitor num capítulo posterior dedicado à cultura do povo botocudo. Aqui, Wied apresentou Guack, assim como Ahó, como “um dos meus botocudos”. Ele deu crédito a Guack por explicar alguns mistérios. O jovem indígena respondeu, por exemplo, às perguntas de Wied sobre a dança botocudo. Guack também explicou que, ao contrário do que alguns afirmavam, seu povo não conhecia cura para picadas de cobra. Em Forte Arcos, quando os dois ainda sabiam pouco da língua um do outro, essas trocas teriam exigido a tradução de terceiros. Wied também mencionou ter conversado com “capitães” ou chefes botocudos em várias ocasiões, comunicação que, igualmente, teria ocorrido por meio de um tradutor.
No entanto, o reconhecimento dessa comunicação entre pessoas foi pouco e fugaz quando comparado aos dados volumosos coletados pelo famoso viajante em inúmeras interações. É difícil não se perguntar como ele conseguiu entender o que testemunhou. Como conseguiu saber coisas que não podiam ser obtidas apenas pela observação visual? Quem lhe explicou as complexidades dos costumes e do comportamento dos botocudos? Ele deve ter se beneficiado não apenas das poucas entrevistas diretas que reconheceu, mas também de um fluxo quase incessante de informações provenientes de homens e mulheres indígenas, mediadas por um número indeterminado de tradutores de habilidades variadas, incluindo soldados indígenas estacionados no forte e outros intermediários.
Uma divisão confusa entre o que Wied aprendeu e como aprendeu paira sobre o seu tratado etnológico. Alguns exemplos irão elucidar essa transferência oculta de conhecimento dos sujeitos indígenas do estudo para o viajante europeu. Wied explicou que o respeito concedido aos “chefes” responsáveis pelas várias “hordas” que vagueavam pelo vale do rio Jequitinhonha dependia das suas “qualidades guerreiras”. Como ele sabia disso? Ele também informou que, nos anos anteriores, esses chefes adornavam-se com cocares de uma dúzia ou mais de penas, o que criava um “belo contraste com a cor denegrida de seus cabelos”, mas que já não os usavam mais. Como ele poderia saber disso? Ainda, acrescentou que “Os órgãos sexuais masculinos parecem ser sempre de tamanho moderado entre os povos nativos da América do Sul”. Ele teria inspecionado homens nus em número suficiente para sustentar tal generalização? “O amor por uma vida livre, rude e independente”, escreveu ele sobre as crianças botocudo, “está profundamente inscrito desde cedo no espírito dos jovens e permanece assim por toda a vida”. As crianças realmente expressaram esse sentimento a Wied, mesmo por meio de tradutores? Ainda de acordo com o autor, quando um membro do seu grupo morria, os botocudos choravam com “gemidos terríveis”, especialmente as mulheres, que se comportavam como se estivessem “loucas”. No entanto, a sua dor não era profunda, evidentemente, pois, no dia seguinte, pareciam não ter sido afetados, “retomando as suas vidas habituais”. Mesmo com pistas visuais, como poderia Wied compreender os sentimentos mais íntimos dos seus sujeitos masculinos e femininos? Essas avaliações, apresentadas como fatos, proliferaram no tratado do príncipe. Elas se baseiam em informações que ele só poderia ter obtido de informantes indígenas, quase sempre não identificados por ele. A explicação adicional — de que ele também se apoiou em relatos publicados de outros viajantes, na compreensão parcial e tendenciosa dos colonos, em estereótipos perniciosos e nas suas próprias suposições infundadas — é óbvia em alguns desses casos, senão em todos eles. Seja representada com precisão ou de forma errada, a presença silenciada dos interlocutores indígenas e dos tradutores intermediários pairou sobre toda uma etnografia aclamada como uma das mais perspicazes já escritas sobre os diversos povos do vale do rio Jequitinhonha, um texto que ajudou a garantir a fama duradoura de Wied na Europa e nas Américas. Apesar da voz narrativa marcada pela autoridade de Wied e de outros escritores europeus de sua época, o trabalho intelectual não reconhecido dos informantes indígenas é responsável por grande parte do que podemos saber sobre as práticas e lutas de seus povos no passado.
Prof. Hal Langfur
É professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Nova Iorque em Buffalo e autor do livro premiado Adrift on na Inland Sea: Misinformation and the Limits of Empire in the Brazilian Backlands (Stanford: Stanford University Press, 2023).
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SAIBA MAIS:
DUARTE, Regina Horta. Olhares estrangeiros: viajantes no vale do rio Mucuri. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 22, n. 44, p. 267-288, 2002.
LANGFUR, Hal. Canibalismo e a legitimidade da guerra justa na época da Independência. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 37, n. 75, p. 119-43, 2017.
LANGFUR, Hal. The forbidden lands: colonial identity, frontier violence, and the persistence of Brazil’s Eastern Indians, 1750 – 1830. Stanford: Stanford University Press, 2006.
WIED-NEUWIED, Maximilian Alexander Philipp. Viagem ao Brasil. Tradução de Edgar Süssekind de Mendonça e Flávio Poppe de Figueiredo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989..


