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OS KINIKINAU E O TRABALHO BRAÇAL

O aprendizado do trabalho braçal pelo povo indígena Kinikinau nas fazendas pantaneiras durante os séculos XVIII e XIX tornou o jovem Pakalalá um exemplo de liderança.
 EXISTIU UMA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL?

LI: Mapa de localização dos povos indígenas no Chaco paraguaio
Fonte: Bolsan, 2013, p. 32 apud Métraux, 1943.

Os Kinikinau e o trabalho braçal: O aprendizado do trabalho braçal pelo povo indígena Kinikinau nas fazendas pantaneiras durante os séculos XVIII e XIX tornou o jovem Pakalalá um exemplo de liderança.

por Rosaldo de Albuquerque Souza

Inicio este relato contando parte da história da criação do universo na visão cosmológica dos indígenas Kinikinau, do estado de Mato Grosso do Sul. Esse povo, remanescente do grande grupo de tronco linguístico Aruák, já foi considerado extinto. Atualmente, habita vários municípios do estado, mas não possui terra própria. Expulso do seu território no século XIX, tem uma aldeia em território emprestado.

Os Kinikinau, antes da chegada dos dispositivos eletrônicos na sua aldeia, como celulares, videogames e televisões, tinham o costume de reunir as famílias à noite para contar histórias como forma de perpetuação da memória. Nessas reuniões, os anciãos, à beira de uma fogueira, contavam e discutiam os fatos históricos, fazendo uma ponte com a atualidade e a realidade do povo. Atualmente, essas rodas de conversa são muito raras nas comunidades Kinikinau.

O ancião Leôncio Anastácio (in memoriam) contava que os Kinikinau sempre gostaram de trabalhar, eram muito esforçados para aprender os mais variados ofícios e não tinham medo de “patrões bravos”. Até mesmo a leitura e a escrita foram ofícios que eles aprenderam logo que os padres jesuítas deram início à evangelização dos indígenas. Com essa aprendizagem, eles passaram a ocupar cargos de confiança nas congregações católicas da época.

O Universo, na visão cosmológica Kinikinau, foi criado por um ser superior, que eles chamam de Itukó’óviti, que significa nosso criador (Deus). Itukó’óviti criou o universo e tudo o que nele existe, e no final, criou o ser humano, ao qual deu ordens, poderes sobre a natureza e privilégios entre todos os viventes. Os humanos conseguiam conversar com os animais. Algumas espécies pareciam ser inteligentes e queriam disputar com eles em alguns afazeres.

Os homens eram responsáveis pelo preparo da terra, plantio, coleta, construção de casas e provisão de carne de caça. As mulheres eram responsáveis pelo cuidado com os filhos, zelo pela casa e preparo dos alimentos. Todos obedeciam a um líder que fora estipulado por Itukó’óviti e, de madrugada, ficavam a postos aguardando a ordem do dia trazida pelo chefe. Assim, iam para o campo e voltavam para descansar no fim da tarde. O alimento era levado aos trabalhadores no campo às 9h da manhã, às 12h e à meia-tarde, por voltas das 15h. À noite, a janta era feita na casa de cada família.

Certa tarde, quando voltavam do trabalho, de longe ouviram gritos e choros vindos da aldeia. Apressaram-se para averiguar e constataram que alguém havia invadido suas casas e maltratado as mulheres e as crianças. Viram muito sangue e muitas pessoas chorando, mas nenhum morto. Começou ali uma investigação, e não demorou muito para que o terrorista fosse encontrado. Era uma grande ave, chamada de Kipa’é, conhecida como ema. O líder expediu a ordem de captura do animal e os homens foram atrás do agressor.

Eles capturaram a ema e, com muito cuidado, a abateram e começaram a retirar os olhos do estômago dela. Encontraram praticamente todos, exceto um, que estava estourado. Com a ajuda de Itukó’óviti, recolocaram os olhos em todas as mulheres e crianças, ficando apenas uma pessoa com apenas um olho. Itukó’óviti achou por bem não criar outro olho e disse que aquela pessoa viveria normalmente assim.

Itukó’óviti levou Kipa’é para o céu, e para que ela fosse lembrada para sempre, transformou-a em constelação na Via Láctea. A constelação do Cruzeiro do Sul é um grande prego usado pelo criador para fixar a ema no céu.

Sr. Leôncio e outros anciãos ensinavam que, por causa desse acontecimento, muitas coisas acontecem atualmente, como as invasões de territórios por grupos opositores, o nascimento de crianças com deficiências e as mortes. Se a ema não tivesse feito essa maldade, o mundo poderia ser bem diferente.

Os Kinikinau sempre prezaram o trabalho e foram sujeitos ao aprendizado. O trabalho braçal era uma característica profundamente enraizada nesse povo. Isso facilitou o contato com os colonizadores, que trouxeram ferramentas e muito trabalho. Nem sempre ganhavam alguma recompensa, mas eram constantemente procurados porque davam conta dos trabalhos mais pesados com rapidez e eficiência. Quando a Guerra do Paraguai (1864–1870) chegou ao território brasileiro, os indígenas Kinikinau e demais etnias foram recrutados como combatentes de linha de frente, pois conheciam o território e tinham terras fartas de alimentos. Dessa forma, podiam fornecer suprimento ao restante da tropa brasileira. Entre os destaques da época está Pakalalá, que foi um grande líder. Ele não se alistou ao exército, mas lutou bravamente para defender o seu povo contra os ataques paraguaios, tornando-se um mártir Kinikinau.

Conforme relatos de memória dos anciãos Kinikinau, nos séculos XVII e XIX, os grupos indígenas do pantanal habitavam um lugar chamado Chaco. Ali, a riqueza natural era bastante ampla, com muita caça, peixes, água em abundância, frutos, raízes e folhas. Algumas etnias já cultivavam plantações, como milho e batata. Além disso, praticavam seus rituais de cura por meios espirituais e com as ervas da região.

Quando os padres jesuítas começaram a fundação das Missões, utilizaram mão de obra indígena para cortar madeira, transportá-la de um local para outro, limpar terrenos e construir estradas. Muitos grupos tribais ou étnicos se recusavam a trabalhar e eram tidos como rebeldes, fazendo com que fossem escravizados e sofressem punições severas, que podiam resultar em óbito pela dor, pela inanição ou pelo remorso, que, muitas vezes, levava ao suicídio. Porém, os Kinikinau eram mais acessíveis e se sujeitavam com mais facilidade. Eles trabalhavam em troca de alimentos, bebidas, tabaco ou negociavam alguma regalia oferecendo as jovens moças para casamento com os empregados e os próprios missionários.

É importante salientar que os indígenas brasileiros sempre gostaram de trabalhar, o que eles não aceitavam era a maneira como os colonizadores os tratavam. A forma escravagista de trabalho causou revolta geral na população indígena, e até o presente século esse grupo populacional é tratado como preguiçoso e avesso ao trabalho. Sabe-se que, atualmente, os indígenas ocupam diversos cargos em repartições públicas e privadas pelo Brasil afora e disputam vagas em concursos públicos, tanto em ampla concorrência como por meio de ações afirmativas ou cotas raciais. O que importa é entender que os indígenas são trabalhadores e ainda buscam por igualdade de direitos.


31 Marta Lúcia Lopes FittipaldiProf. Rosaldo de Albuquerque Souza

É indígena Kinikinau, professor na Rede Estadual de Ensino (SED) em Campo Grande/MS, mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB) e graduado e licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).

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SAIBA MAIS:

BOLSAN, Aila Vilela. Os Kinikinau em Mato Grosso do Sul. A existência de um povo que resiste. Disponível em: < https://bit.ly/3XSRiH9 >

ESSELIN, Paulo Marcos; DE OLIVEIRA, Jorge Eremites (orgs). A Grande Guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (1864-1870): história, historiografia e memória. Palmas: Nagô Editora, 2024 – Cap. 16 - Os Kinikinau na Grande Guerra (1864-1870): exemplos de persistência e resistência. Disponível em: <https://bit.ly/43UpXI8>

SOUZA, Rosaldo de Albuquerque. Sustentabilidade e processos de reconstrução identitária entre o povo indígena Kinikinau (Koinukunôen) em Mato Grosso do Sul. UnB/CDS – Brasília – DF, 2012. Disponível em: <https://bit.ly/4p6lASN >
 
SILVA, Giovani José da; SOUZA, José Luiz de. O despertar da fênix: a educação escolar como espaço de afirmação da identidade étnica Kinikinau em Mato Grosso do Sul. Disponível em: <https://bit.ly/4p9XcQi >