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LI: Mapa de Autoria do sargento-mor Manoel Vieyra Leão. |
Os Tapuias no Vale do Paraíba: uma generalização dos povos originários na ordem colonial.
por Enio Sebastião Cardoso de Oliveira
No Médio e Sul do Vale do Paraíba Fluminense (RJ), meado do século XVIII, já eram identificadas uma série de etnias, principalmente após a chegada da colonização nessa região onde foi fundada a freguesia de Campo Alegre da Paraíba Nova (hoje município de Resende), nome dado a essa vasta região do Vale do Paraíba.
Muitos desses grupos indígenas já viviam no Vale antes mesmo da chegada do colonizador, em tempos chamados “imemoriais,” e outros se estabeleceram nessa região fugindo de um brutal processo de dominação das frentes coloniais.
No entanto, nos primeiros anos de colonização, essa identificação dos povos originários não ocorreu dessa forma. Observando a região de Campo Alegre, era uma área margeada pelos Caminhos Reais (Velho e Novo), que durante muito tempo serviu de rota de tráfego de ouro da região mineiras, “os descaminhos”, vista como áreas sertanejas, era chamada pelos violentos colonizadores, entre os séculos XVII e XVIII, de “Sertões dos Índios Brabos”, e eles não faziam nenhuma distinção em relação aos povos originários da região, como os Puri, Coroado, Arari, Caxaxene, Coropó e Bororo.
Não obstante, na Capitania do Rio e parte de São Paulo, o conquistador só reconhecia essas duas etnias: a Tupi, que vivia no litoral, e os Tapuia, que representava as etnias que viviam no interior.
Segundo Cristina Pompa, Tapuia seria a forma genérica aplicada às etnias de língua não Tupi. A palavra “Tapuia”, antes de ter sido adotada pelos colonizadores, era uma designação genérica dada pelos aos indígenas Tupi do litoral que chamavam os povos originários do interior de Tapuia. Essa “categoria criada pelo contexto colonial” foi utilizada por viajantes em suas crônicas desde o século XVI e estabeleceu uma oposição entre Tupi e Tapuia.
Nesse contexto, Luciana Maghelli em seu trabalho de dissertação Aldeia da Pedra, conclui: “(...) os Puri, Coroado e Coropó pertenciam ao tronco linguístico Macro-Gê não ao Tupi. Também conhecidos como Tapuia (...)”. Essa “categoria criada pelo contexto colonial” foi utilizada por viajantes em suas crônicas desde o século XVI, e em certa medida, era uma tentativa de simplificar a imensa variedade étnica da colônia lusitana no continente americano. Isso demonstra o quanto é difícil identificar os etnônimos indígenas nos primeiros séculos do Brasil colonial, assim como construção de uma Etno-história, devido às diversas lacunas historiográficas existentes.
Em relação a Tupis e aos Tapuias, John Monteiro ressalta o padrão bipolar no processo de interpretação do passado indígena, e assinala, chamando de binômio, o modelo entre os Tupis e os Tapuias na história dos povos originários no Brasil colonial. O autor procurando demonstrar que essa oposição pode ser muito mais complexa do que pode aparentar a princípio pois “este padrão foi reciclado em várias conjunturas distintas, reaparecendo em outros pares de oposição, tais como bravio/manso, bárbaro/policiado ou selvagem/civilizado”.
Monteiro procura mostrar como é obscura a discussão relativa ao binômio Tupi/Tapuia. No entanto, percebemos a postura que denota uma suposta superioridade dos Tupis, os primeiros indígenas a sofrerem com a presença colonial, em relação aos Tapuias, dentro da visão de historiadores tanto do período colonial como pós-colonial, que não observam toda uma gama de variantes que diferenciam os Tapuias no interior do Brasil, representantes de um conjunto de etnias que se organizam social e linguisticamente e têm manifestações culturais distintas, e não falantes da chamada Língua Geral. Uma língua articulada pelos Tupis, portanto, e que passou a ser utilizada amplamente pelo colonizador inclusive pelos bandeirantes paulistas que chegaram ao Centro Sul do Vale do Paraíba.
Sobre a Língua Geral, Aryon Rodrigues, afirma que são “as línguas de origem indígena faladas por toda a população originada no cruzamento de europeus e índios tupi-guarani”. A Língua Geral não era falada só pelos indígenas do litoral, mas também pelos mestiços e portugueses que viviam nos tempos coloniais no Brasil, como os bandeirantes. Bessa Freire, por sua vez, versa em seu trabalho relacionado a esse tema que no período colonial “a expressão língua geral tem um sentido mais amplo, designando as línguas usadas em vastas extensões territoriais ou, no caso do Brasil, línguas aparentadas da família tupi-guarani”.
Sob a ótica dos oitocentos, os “Tupis do litoral pareciam ter perecido por completo desde há muito, sendo retratados cada vez mais em tons românticos e nostálgicos”. Já os Tapuias eram representados quase sempre como inimigos dos portugueses, ainda que as evidências históricas apontem para o caráter dúbio dessas relações.
Os indígenas das áreas interioranas, eram chamados no período colonial como “índios bravos”, isto é, visto como selvagens, violentos e praticante da antropofagia, algo que nunca foi comprovada. Povo que ocupavam uma região, que nos séculos XVII e XVIII, eram chamadas pelos colonizadores e autoridades coloniais de “sertões dos índios brabos”.
O interessante frisar que as áreas conhecidas como sertanejas no período colonial, foi algo que preencheu o imaginário colonizador, como lugar violento, perigoso, onde prevalecia a barbárie, sem a presença civilizadora. O que em certa medida, se tornou um obstáculo para a marcha colonizadora. Assim, provavelmente, o temor dos povos originários do interior, adicionado à distância do litoral, contribuiu para que as etnias dos sertões resistisse por mais tempo ao processo de dominação, mostrando bem o caráter dicotômico estabelecido entre Tapuia (do interior) e Tupi (do litoral).
Por tanto, tal caráter dicotômico, classifica os Tupis do litoral, como indígenas de pazes, ou mansos, que sofreram nos primeiros séculos de nossa história, todo tipo de violência no processo colonizador; todavia aos Tapuia, devido seu aspecto bravio e violento, o que lhes acarretava certo temor, e que em certa medida, acabou por contribuir para sua sobrevivência no decorrer do período oitocentista.
De forma geral, só no século XVIII essa definição dos povos originários do Vale do Paraíba foi identificada nas fontes com maior clareza, tanto nas eclesiásticas quanto nas fontes militares, nas cartas entre autoridades da colônia, e delas destacamos a presença das etnias Puri, Coroado, Ariri, Bororo, Coropó, Caxaxene, dentre outras.
Prof. Ênio Sebastião Cardoso de Oliveira
É Professor da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC- RJ) e da Secretaria Municipal de Educação de Resende (SME - Resende) autor do livro Entre a Cruz e a Espada: Uma reflexão das políticas indigenistas e seus impactos no Vale do Paraíba – XV ao XVII, Ed. Paco, 2025.
SAIBA MAIS:
FREIRE. José Ribamar Bessa. Da Língua Geral ao Português: Para Uma História dos usos Sociais Das Línguas na Amazônia. Tese de Doutorado em Literatura Comparada apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras. Rio de Janeiro. Instituto de Letras. UERJ. 2003.MAGHELLI, Luciana. Aldeia da Pedra, estudo de um aldeamento indígena no Norte Fluminense. Dissertação de mestrado, História Social. Rio de Janeiro. UFRJ, 2000.
MONTEIRO, John Manuel. Tupis, Tapuias e Historiadores: Estudos de História Indígena e do Indigenismo. Campinas, SP: Unicamp, 2001.
POMPA, Cristina. As muitas Línguas da Conversão: missionários, Tupi e “Tapuia” no Brasil colonial. In: Revista Tempo, nº 11. Niterói. UFF. 2001


